quarta-feira, 30 de abril de 2008

Jogo de interesses

Uma reportagem “fantástica” foi veiculada nesse último domingo (27). Ernesto Paglia foi o repórter incumbido de mostrar os arredores da reconstituição do crime que matou a garota Isabella. Na reportagem, aparecem populares que supostamente se aproveitam para lucrar com a atenção dada ao caso.

Interessante a iniciativa de focar uma reportagem nas reações da população. Afinal, tem-se batido muito nas mesmas teclas: resultados de investigações da perícia para cá, depoimentos da defesa para lá. O público quer sim saber as últimas e mais quentes notícias sobre o caso. Mas no fim das contas, o receptor também quer se ver. Ao menos sob esse aspecto, o Fantástico foi ao encontro de seu estilo.

O problema se apresentou no enfoque dado à reportagem. Como jornalista, você não pode ser neutro, mas você pode – e deve - tentar ser o quanto mais isento possível. O repórter Ernesto Paglia não foi. Perceba a entonação sarcástica no trecho: “o vendedor se diz profundamente emocionado”. Não fosse esse tom desnecessário, a matéria seria um bom reflexo dos acontecimentos no local.

Sim, muitos estavam próximos à cena do crime para lucrar, como o vendedor de algodão doce – um dos únicos a, humildemente, reconhecer o motivo de sua presença ali. No entanto, outros podiam sim estar emocionados, por que não?

Cabe questionar o seguinte: a imprensa por acaso não tem interesses na divulgação dos fatos relacionados ao caso da menina cruelmente assassinada? Que moral tem a referente emissora para julgar possíveis lucros adquiridos pela população, devido ao crime? A mídia por acaso está isenta da utilização do “drama alheio”? Se não fosse lucrativo para a emissora, não seria dedicado tanto tempo ao “dramático” assunto Isabella.

População e televisão estão quites. E fim de caso.

P.S.: será que meu blog será uma das respostas do Google para a busca por "Isabella"? he he he.



No estudo do telejornalismo, consideramos nao recomendável a utilização de uma entrevista ao final da reportagem. É como dar a última palavra a alguém e tomá-la como verdade.

Perceba a última frase: "Eu acho isso ridículo". O repórter não precisou fazer mais nenhum esforço para deixar clara sua opinião.

1 Comment:

marquinhos said...

A velha neutralidade em jogo novamente. Segundo Émile Dürkheim (leia-se a trema para dar o charme e real pronúncia ao nome) é difícil sermos neutros, axiologicamente neutros. Porém, como sabemos - ou deveríamos saber - que a neutralidade nem sempre é possível, o correto é chegar mais próximo da insenção, do envolvimento opinativo do case da reportagem. O Paglia não fez. Talvez nem tenha faltado alguma aula, mas aprendera com a prática do dia-a-dia e também com a necessidade de trabalhar para sustentar-se, que os meios midiáticos possuem outros interesses nos cases abordados diariamente. "Eu é quem acho isso ridículo". Belo texto crítico! Concordei em gênero, número e grau contigo! Parabéns!

Beijo chiclétin! ^^